terça-feira, 13 de novembro de 2012

O Fernando pensou-a.

Pois é. Hoje não fui a português. Os meus brônquios decidiram que tinham saudades uns dos outros e começaram a dar uns abraços, e tive de ficar em casa até a porcaria da crise passar.
Mas o facto de não ter ido a português evoca um tema interessante para falar. O tema que me tem perseguido incansavelmente, insaciavelmente, desinteressantemente, ao longo destes santos 2 meses de aula. E o tema não é nenhum nem outro do que Fernando Pessoa.

Eh pá, eu não sei se alguém algum dia teve 20 no exame de português. Mas, caso essa alma tenha existido... quero um bocado do que quer que ele tenha fumado. É que para ter agilidade mental para encarar, de punho em riste com a caneta nos dedos, as curvas e contracurvas da lógica Pensouana é preciso estar num estado muito muito alterado. E não estou a falar de alterado tipo "ah e tal fumou um charro". Nada disso. Tou a falar de alterado como em plantou marijuana nos pulmões e engoliu um fosforo aceso.
O homem (o Pensou-a) é um paradoxo ambulante. Um gajo começa nas aulas a ouvir a professora a falar das cenas dele, que é um gajo que intelectualiza bué e tal, que se sente sozinho e coiso, fingimento poético para ali, heterónimos para acolá. E há uma coisa que todos os professores (bem, pelo menos com a minha foi assim), insistem em martelar nas nossas cabeças nas primeiras 10 aulas de Português de 12º: "Fernando pessoa bota a razão acima da emoção".
E fazem bem. Um gajo interioriza isto, faz as cenas a brincar. Eu à custa desta porcaria nunca fiz um trabalho de casa da aula e a stora achava sempre que me aplicava bué! Mas o bonito é quando nos apresentam poemas de amor do gajo. Ou então o poema do céu cinzento.

Então andamos nós 10 aulas a ouvir que o gajo não sente e o caralho, e depois a parte da emoção é que interessa? Aposto que todo o aluno, mas TODO mesmo, de 12º, quando chega a esta parte desta matéria, pensa "MAS QU'ESTA MERDA, PÁ?". Ou isso ou estão tão atentos à aula que nem pensam nada, simplesmente são (aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah, apanharam a referência?).

Outro tema interessante para falar é os azeiteiros. Esta espécie, "Parvalhonos Azeiteirus", está em proliferação massiva. Hoje saí do autocarro, aliviado por não ter caído (diga-se de passagem que o motorista tava a treinar ritmos de bateria com os pedais do acelerador e travão), e comecei a ir para casa. Ainda eram só seis da tarde, mas estava escuro como breu. O vento uivava alto, furando a minha roupa, rasgando-me a pele com milhões de agulhas geladas.
Então um som rasgou o cantar do vendaval e chegou-me aos ouvidos, navegando nas turbulentas ondas do ar enraivecido. Olhei na direcção do barulho, e não consegui conter um esgar de horror.
Apenas a uns 20 metros de mim caminhava um miúdo dos seus 14 anos, magro que nem um pau, de chapéu para se proteger do agressivo sol nocturno, uma camisola a dar-lhe pelos joelhos, colar com "plim-plins" a dançar no seu pescoço descoberto (afinal de contas não era uma t-shirt normal que o gajo usava, era uma daquelas que tem decote maior que os tops das gajas). E o toque de graça, a última peça do puzzle, a piece de resistance, estava na mão dele.

O telemóvel.

O gajo. Estava. A andar na rua. Com. O telemóvel. A berrar dubstep. Encostado ao ouvido.
Mas qu'esta merda afinal? Juro que mal acabe de escrever isto vou redigir uma carta de reclamação à fabrica do Gallo mais próxima! Deixar estas criaturas fugir dos escorredouros e deambular na rua é perigoso! Imaginem que o gajo passava a frente de uma velhinha. A senhora ia cair no chão, coitada! Escorregava de certeza!
É que vocês não sabem, mas estes gajos a escorrer azeite são tipo os caracóis: deixam um rasto por onde andam. É incrível. E aquilo da-lhes um jeitaço do carago! Os gajos não caminham, como uma pessoa normal. Não não. Os gajos deslizam! Eles inclinam-se para a frente, o azeite escorre para a rua por baixo deles, e os gajos vão a deslizar!
Depois há aqueles, que já não são azeiteiros, já são tipo óleo fula, que conseguem DANÇAR enquanto deslizam. Esses gajos é que me partem todo. Ainda noutro dia vi a final de um campeonato internacional de breakdance na Koreia e só pensava "estes gajos à beira dos Oleeiros são uns meninos, pá!". Já viram a coordenação, o equilíbrio e, acima de tudo, a resistência ao medo de fazer figura de urso a ter ataques epilépticos que estes gajos têm? Não é de louvar, mas é de, no mínimo, galardoar com um "Tché, ganda cen'ó máno!"

E bem, desejo-vos agora a todos uma boa noite.
Quando se deitarem não se esqueçam de ver se à azeiteiros debaixo da cama.
Esses gajos são como as raízes.

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